quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Araranguá - Barra do Ribeiro

21:50 - Nego, se eu sair dessa amanhã vou dormir em um hotel de verdade. Não tinha a menor ideia de como esse dia ia acabar, nem começar. Revoltado com a noite de insonia tentei partir rápido, o que mais uma vez não deu certo. Quando parecia tudo ok percebi que não havia pego o Cateye e tive de tirar tudo da mala na recepção para encontrá-lo no fundo do alforje. Com apenas 40 km parei, não me sentindo bem. Comi e abasteci de água (que não tinha encontrado em nenhum posto). Melhorei 100% e fiz 24 km rapidinho, mas... Tudo que importa sempre vem depois do MAS! Passei por um caminhãozinho atolado no barro e no primeiro momento segui pensando em quantos km eu deveria agilizar até o fim do dia. Precisava cobrir uns 150 km para conseguir chegar em Porto Alegre no sábado, em tempo de trocar o dinheiro no câmbio. Fiquei com peso na consciência e voltei para ajudar o motorista solitário, que estava de barro dos pés à cabeça.

- Quer ajuda?
- (cara de "o que você pode fazer idiota?") Tá indo pra onde?
- Pra Porto Alegre.
- Me ajuda que eu te dou carona até lá.

A nós se juntou mais um moço "bom de palpite" e alguns donos de caminhão que pararam para tentar rebocar. Quase conseguimos, mas uma placa de trânsito atrapalhou e atolou ainda mais. O jeito era chamar o guincho, só que o motorista não estava muito afim de meter a mão no próprio bolso pelo caminhão do jornal. Ele havia parado para dormir e quando acordou...

Parou mais uma boa alma que tentou sem sucesso ajudar e então que revoltado o atolado pediu ajuda para remover a placa, enquanto ele quase tombou o caminhão e conseguiu sair! Eu acabara de voltar com garrafas de refrigerante. Entramos, amarrei a bike como uma "menininha" e partimos. O ministério da saúde e a torcida do Brasil advertem: Pegar carona pode ser fatal! O homem (até então não havíamos nos apresentado)  falara no celular, tomava refrigerante e dirigia ao mesmo tempo! Tudo isso com apenas duas mãos! Eu morrendo de medo de ser meu fim e ele trocando declarações amorosas com a namoradinha extra oficial. Paramos para almoçar, arrumei a bike no baú e comemos como porcos por conta dele. Na volta à estrada ele parou o caminhão e mandou eu guiar porque ele iria dormir. Argumentei, nunca havia dirigido um daquele, to sem habilitação... Como queria dar fim ao sofrimento da carona rápido fui pro volante e ele dormiu ao lado como uma criança.



Passei por posto da Polícia Rodoviária, paguei pedágio e dirigi até a rodoviária de Porto Alegre. Nos despedimos e eu fui atrás da casa de câmbio. Após conseguir os pesos uruguaios decidi continuar pedalando para encontrar um hotel mais barato... PENSE NUM NEGO BURRO: Cheguei em uma cidadezinha (na verdade nem cheguei a entrar na cidade) depois de Guaíba e não tem onde ficar. Pedi pra um e pra outro deixarem eu armar a barraca no quintal das casas e acabei aqui no galpão abandonado da paróquia, com a certeza de que serei manchete dos jornais daqui a três dias quando me encontrarem. Amanhã hotel com banheiro!
Montei a barraca sobre o palco e escondi a bike embaixo. Enquanto não me decido se me sinto seguro tenho de me esforçar um pouquinho para descrever esse lugar. O marasmo do abandono e o som dos bichos do mato constatam com o constante passar de veículos na Rodovia que não está muito distante. Embora a capela não esteja aberta não há sinais de abandono, já não podemos afirmar o mesmo do "complexo de festas paroquial". Um salão enorme, coberto de madeira, com um palco de um lado e um balcão na outra extremidade. Ao lado banheiros, uma "quadra" de volei marcada na grama, uma churrasqueira com algo que não pude identificar, mas macabro o suficiente para o momento. De vez em nunca um carro ilumina o lugar levemente ou um som foge aos habituais e então (como nesse exato instante) meu coração pausa. Esta noite pode definir minha concepção de medo. Amanhã é véspera de natal...
Para amenizar meu horror comecei a disparar torpedos SMS para todos e pra Larissa eu disse que estava no quintal de uma família.