“Só foge da solidão quem tem medo dos próprios pensamentos, das próprias
lembranças.” Erico Veríssimo
O medo que tenho do desconhecido
me compele a tentar o diferente. Prefiro viver Tim, viver Raul, do que viver Roberto
Carlos. No caminho me deparei com o medo de não embarcar, com o medo de
fracassar, medo de não ter onde dormir, pavor de ser assaltado, enganado, errar
o caminho... Eu sou Eugênio e Olívia. Queria não sê-los, mas, tal qual Eunice,
Erico sabe ler as pessoas.
Descobri porque viajo, a razão pela qual vivo inventando
loucuras: MEDO. Tenho medo de tudo e sinto uma necessidade pungente de
enfrentá-lo. “O que isso tem a ver com o livro?” Você deve estar se indagando
com certo grau de impaciência. Eu explico...
Já havia pedalado mais de 1000 km quando o Erico Veríssimo
me contou a verdade, me explicou o Medo. Em alguma lista do Ensino Médio
constava o livro “OLHAI OS LÍRIOS DO CAMPO”, o primeiro clássico do autor, que
eu rejeitei como tantos outros. Na minha rebeldia juvenil era inconcebível que
me fosse obrigado um prazer, então rechaçava tudo que estivesse na bendita
lista anual do colégio. Ainda bem! Passados 10 anos, já atrasado para ir ao
Tietê pegar o ônibus que me levaria à Curitiba, subi as escadas correndo e
procurei “Capitães da Areia” na estante. Estava emprestado, mas e agora? Se não
vou levar o livro favorito vou levar o que eu nunca li. Dessa maneira “Olhai os
lírios do campo” foi selecionado, eu ainda não sabia exatamente para o que.
Comecei timidamente a leitura ainda em SC, mas no meu
primeiro dia em solo uruguaio passei a devorá-lo, primeiro para combater a
solidão que o idioma maximizava, depois porque não conseguia mais parar. Veríssimo
apresenta um romance real demais pra ser empolgante, pessoal demais pra ser
ilusão. A típica história do garoto pobre que supera as barreiras sociais em
sua busca pelo sucesso. A questão central que o gaúcho vai esmiuçar é
justamente esta: O que é o sucesso? Nos encontros e desencontros da vida de
Eugenio nos deparamos com as dúvidas e medos que todos os dias perturbam nossas
vidas. Nos reconhecemos nas atitudes que queremos condenar, mas não podemos,
pois já chegou o tempo em que nosso exame de consciência limitara o julgamento
moral. Talvez você não se identifique ao complexo de inferioridade que move
Eugenio ao sucesso, ou ao desprendimento das pressões sociais que tornam Olivia
uma heroína, ou ainda à soberba e erudição de Eunice, mas se o livro não lhe
conclamar a expiar suas próprias verdades absolutas uma única vez eu juro que volto
a pé até o Uruguai pra buscar aquela edição adulterada!
“A
Olívia tinha razão... Felicidade é a certeza de que nossa vida não está se
passando inutilmente. São estes intervalos entre um trabalho cansativo, estes
momentos em que a gente pode conversar com um amigo, brincar com os filhos, ler
um bom livro... O erro é pensar que o conforto permanente, o bem estar que
nunca acaba e o gozo de todas as horas são a verdadeira felicidade. Como agora
eu vejo claro! É preciso o contraste...”